A DECEPÇÃO

 

“O homem que saiu ao campo a procurar ervas, trouxe veneno em vez de alimento. E quando todos já estavam se fartando da refeição soou o grito: Morte na panela ó homem de Deus”. (2 Reis 4.40)

Eliseu foi aquele profeta escolhido por Deus para substituir Elias, e ele pediu a Deus porção dobrada do Seu Espírito Santo, e de fato, os discípulos de Elias passaram a seguir Eliseu depois que observaram que o Espírito profético de Deus repousou sobre Eliseu. Cerca de cem estudantes faziam parte da Escola dos Profetas comandados por Eliseu. As palavras e os fatos deste capítulo descreve a calamidade da fome sobre Israel. Mas, é admirável a forma como esta história começa, e sua primeira informação visa celebrar a presença de Eliseu voltando a Gilgal. (v.38) Há pessoas carecidas de paz. Há pessoas com a sobra do vazio dentro de si. Há diferentes formas de escassez, há também diferentes fontes para ela. A escassez coloca limites. A experiência da escassez é um produto exclusivamente humano. A abundância vem de Deus. Se Gilgal é lugar da Aliança, do Pacto de Fidelidade e Lealdade, por que haveria fome nesse lugar tão importante? Faltou o “domínio” do ingrediente.

A palavra mostra que havia muita fome naquela terra. Eliseu deu ordem a um de seus discípulos para que buscasse ervas para pôr no caldo. Este foi, porém, encontrou uma videira brava, e dela colheu grande quantidade, e mesmo não a conhecendo, voltou e a lançou dentro da panela, que se contaminou com o tóxico da parra brava. E quando todos já estavam se fartando da refeição, soou o grito: “Morte na panela ó homem de Deus”. Porém Eliseu disse: Trazei, pois, farinha. E deitou-a na panela e disse: Tirai de comer para o povo. Então, não havia mal nenhum na panela. (v.41) Eliseu estava altamente consciente da sua tarefa como Líder dos profetas. Os profetas estavam sendo preparados por Eliseu para o combate. As raízes da guerra são profundas. O profeta que não estiver preparado se assustará diante das adversidades. A fonte do ataque de pânico dos profetas foi encarar a morte, um descuido na alimentação. Se essa função estiver enfraquecida, qualquer quantidade de novas informações levará o sujeito à confusão e à sobrecarga.

Em vez de reter a informação que não faz sentido, a mente a esquece. Em meio a essa confusão, qualquer outro problema piora a situação, e circunstâncias comuns podem se transformar num pesadelo de frustração, medo, pânico e ansiedade. Pensamentos inúteis passam pela mente e a atenção se perde em um sentimento de terror, se movendo dentro da alma a pessoa fica paralisada, incapaz de fazer qualquer coisa para apagar o pânico, e a desordem ameaça dominar a vida. Foi justamente o que aconteceu quando a videira brava procurou descoordenar e desajustar os profetas, e no comportamento desorientado da morte em potencial, eles se envolveram na teia da ultima volta, que é como tentar tirar arbustos de hera ou touceiras de bambu de seu quintal, cortando-o no nível do chão. O pânico precisa ser abordado no nível das raízes. O trauma é uma raiz profunda.

Quando o trauma é transformado, uma das dádivas da cura é a admiração e reverência pela vida, como a que as crianças têm. Quando Eliseu consegue renegociar o veneno com a farinha, ocorre uma mudança fundamental no interior dos profetas. A transformação é o processo de mudar algo em relação a seu oposto. Na transformação entre um estado de paz, existem mudanças fundamentais entre o sistema nervoso, sentimento e percepções, que são experienciados pela sensopercepção. O sistema nervoso oscila entre a imobilidade e a fluidez, as emoções flutuam entre o medo e a coragem, e as percepções vão da limitação à amplitude. O sistema nervoso recupera sua capacidade de auto-regulação por meio da “transformação”. As emoções começam animar em vez de “pôr para baixo”. Elas impelem para a maravilhosa capacidade de elevar, e o trauma é suavemente curado com sua unificação gradual. Quando um médico lida com um trauma físico, seu trabalho é apoiar a cura, lavar o ferimento, protegê-lo com uma bandagem ou gesso. O gesso não cura o osso quebrado; fornece um meio físico de apoio que permite que o osso inicie e complete seu próprio processo inteligente de cura.

Por que é que ter acesso às necessidades básicas parece tão pouco, tão sem sentido? É preciso ter motivo válido para viver e por isso, o homem atribui valor à causa, para dar sentido à vida. Para um individualista, não faz sentido se sacrificar pelo benefício de qualquer outra pessoa que não seja ele próprio. Por isso, o profeta descuidado trouxe morte para a panela. Mas Eliseu estava praticando a lealdade de deixar um “legado”, de deixar para seus profetas uma vida que tinha valido a pena. É esse estado de amorosidade e de generosidade que brota todos os dias entre pacientes com doenças incuráveis ou terminais. São pessoas que buscam, conscientemente, dar sentido às suas vidas antes que elas terminem. Seus olhos passam a perceber o mundo de outra maneira, e elas se sentem extremamente propensas a compartilhar sua nova visão. O que é mais importante? O significado da vida, por incrível que pareça, pode estar no olhar do seu cachorro.

E é assim, compreender o que é sagrado, tornando a vida cheia de significado, para que possa terminar os dias sem medo, sem pânico e em paz. Portanto, pessoas podem ser fieis, mas não serem leais. Fieis são aquelas que apenas se preocupam em não deixar de cumprir a promessa, mas muitas vezes desenvolvem estratégias para dissolver o acordado e não serem apanhadas na infidelidade de fato. Foram fieis ao que foi negociado na conduta por outros interesses. Lealdade é para poucos, e ela resulta de uma decisão consciente, uma forma de nobreza e tem a ver com sacrifício, pois se manifesta o melhor de uma pessoa. A lealdade está amparada em valores, não apenas em sentimentos. O oposta da lealdade é a traição. Lealdade é entrega absoluta, que não exige nada em troca. Deus deu a Eliseu um cargo de confiança, e o profeta ensinou aos seus alunos a ser “Leal”.

Eliseu mandou um de seus discípulos ir ao campo a fim de encontrar algo para comer. O seu discípulo em vez de colher vida para seus irmãos, trouxe morte, instrumento de desgraça no meio do povo. Cuidado com as coisas ruins que estrangulam o afeto. Israel passou a amar mais o sustento do que a Deus. O verdadeiro motivo do veneno mostra aos discípulos rebeldes o aviso para salvar e resgatar entre os cativos, pois, as ervas venenosas estão sendo assoladas dentro dos templos, provocando morte entre os irmãos. Há algo, portanto, mais importante a ser buscado : o amor torna a alma visível. Eliseu voltou para Gilgal, e o efeito danoso da erva foi neutralizado com a “Farinha”: “Removido”, “Provisão”, “Lugar da Páscoa”. “Eu Sou a Videira Verdadeira, e Meu Pai é o Agricultor. Eu Sou a Videira, vós os ramos. Quem permanece em Mim, e Eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer”. (Jo 15.1,5)

“MÔNICA DRUZIAN GOES”

Ref:

Pura Reflexão

A Filosofia da Lealdade -Josiah Royce

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